Bárbara Magalhães – “Somos todos iguais no nosso desejo de liberdade e respeito”

  1. Podes te apresentar, dizer algumas coisas sobre ti para te conhecermos melhor?

Chamo-me Bárbara, tenho 37 anos, sou uma eterna curiosa, apaixonada por pessoas, animais, sensações, pormenores, completamente deslumbrada pela vida, vegana de corpo e alma, mãe de um filho com 5 anos, licenciada em Psicologia, autora do livro “Lexy, o menino vegano”.

2. Quando decidiste alterar a tua alimentação e qual foi a razão?

Foi em Maio de 1998, após assistir a um vídeo que a PETA passou num programa duma estação portuguesa, sobre a exploração de animais (alimentação, circos, laboratórios, etc.). Foi um choque absoluto, acordei os meus pais com o meu choro. Foi tão duro, que não conseguia estar nas aulas (estava no secundário), as imagens saltavam-me a toda a hora à cabeça, só conseguia chorar. Nesse momento decidi deixar de comer animais, mas só deixei completamente no início de 1999, porque a minha mãe ia-me fazendo umas rasteiras, misturando umas coisas na sopa, etc. Nessa altura ainda acreditava que comer lacticínios e ovos era perfeitamente natural, necessário e isento de sofrimento, só mais tarde, com o aprofundar das coisas, me fui apercebendo que havia mais a fazer.

3. Por onde é que começaste, aconteceu de um dia para o outro, ou foi um processo? O que achas que foi importante para ti nesse processo de transição para continuares no caminho?

Como disse acima, primeiro deixei o consumo de animais, e só 10 anos depois, os derivados (embora tivesse longos períodos de vegetarianismo estrito). Gostaria de ter deixado tudo duma vez, é algo que ainda me custa perdoar, mas foi assim.

Na minha opinião, para dar este passo e mantê-lo, é importante saber da realidade. Sei que muita gente se esconde das imagens, porque não quer deixar de comer o que come, mas acreditem que a nossa imaginação é insuficiente para desenhar realmente o que se passa com os animais diariamente. Nem todos precisam de ver vídeos, podem ler, podem conversar com alguém, etc. Embora já o tenha feito, principalmente no inicio da minha caminhada, hoje não acredito em forçar essas imagens às pessoas, mas acredito em recomendá-las, avisando-as de que o que vão ver é feio, muito feio (é provavelmente a coisa mais feia que já viram na vida). Claro, falo de adultos, não de crianças. As crianças, se desde pequenas são educadas a respeitar os animais e a vê-los como animais e não alimentos, encaixam isto muito bem. Não precisam de saber que fazem x ou y às vacas ou aos perus. Um adulto é que já foi de tal forma condicionado e já vive de tal forma dessensibilizado, que muitas vezes precisa do clique, como eu precisei. Deixar de comer animais foi muito simples para mim, pois a partir do momento em que vi o sofrimento destes seres, eu soube que não queria mais contribuir para isso. Animais deixaram de ser alimento para os meus olhos ou estômago, passaram a ser simplesmente animais como eu.

4. Quais foram as reações da tua família? Moras com alguém, eles também alteraram os hábitos alimentares? Se tiveres filhos, como foi o processo para eles?

Na altura morava com os meus pais e o meu irmão e sinceramente não reagiram muito bem. No primeiro ano, como já mencionei, a minha mãe ia misturando carne na sopa, punha knorr na jardineira de soja, preparava comida para me tentar fazer mudar de ideias, etc. Ainda esse ano entrei na faculdade, fui morar sem os meus pais, e aí ficou decidido dentro de mim e com eles, que animais estavam completamente fora do meu prato.

Os meus pais não alteraram hábitos alimentares, mas o meu irmão deixou de comer animais uns anos mais tarde. Eu tenho um filho com 5 anos, que é vegetariano desde sempre. Para ele o processo foi simples, porque é a normalidade aqui de casa. Mesmo agora que entrou no Jardim de Infância (só entrou com quase 5 anos) conversei com ele, para saber se se sentia mal por comer diferente dos amigos e se preferia comer como eles e ele disse que não, que quer que continuem a preparar a comidinha vegetariana dele. Já pediu para comer bolo não vegano na escola, só porque o aspecto era igual aos dos bolos veganos, mas foi resolvido facilmente, tendo agora sempre alternativa para os dias em que os amigos levam bolos. Não posso garantir que ele será vegetariano a vida toda, porque ele é ele, tem o caminho dele,  porque a vida dá mil voltas, passamos por mil fases, etc., mas para já tem sido muito pacífico.

5. Qual é que foi o alimento / ingrediente mais difícil de largar? Arranjaste algum “substituto”?

Sem dúvida alguma, o queijo! Eu deixei de beber leite rapidamente, porque me metia nojo, mas o queijo era o que me fazia recuar constantemente. Hoje sabe-se que o queijo tem uma substância aditiva. A solução que arranjei foi, durante uns meses, usar queijo vegetal de qualidade em tudo e mais alguma coisa. Comia todos os dias, em pizzas, tostas, lasanhas, etc. Usei durante uns tempos até o meu corpo se desabituar do outro. Hoje já não sinto vontade alguma de comer.

6. Tens algum ingrediente/receita que antes desconhecias e que agora simplesmente adoras? E uma receita que tem sempre sucesso com os outros?

Eu não sabia nada de comida vegetariana. Acho que a primeira vez que ouvi falar de vegetarianismo foi justamente nesse programa de TV. Até aí, em todas as refeições que comia, havia algo de origem animal. Por isso, tudo que fiz a partir daí, foi novo. Receitas que têm sempre sucesso com os outros (embora raramente faça para mim): tofu à Brás, pizza vegana, seitan panado, empadão, bolo cru.

7. Qual é o tipo de alimentação que tens hoje em dia? Podes descrever um dia a dia normal?

Hoje em dia tento fazer uma alimentação mais crua. Tive fases em que comia 100% cru, e fases em que comia tudo cru excepto uma refeição por dia. Para mim, e repito, para mim, é a alimentação que faz sentido porque pude verificar que realmente faz diferença na minha saúde, na minha energia e vitalidade. Num dia ideal, começo o dia com um batido, onde tento misturar fruta, superalimentos, algum verde, mais tarde uma refeição cozinhada, e no resto do dia continuo com coisas cruas. Noutros dias, inicio igualmente com batido, mas incluo mais cozinhados. Aqui em casa não tenho horas rígidas para comer, nem número rígido de refeições por dia. Acredito mais em ouvir o corpo, mesmo quando ele pede que coma bem menos.

8. Como é que fazes quando comes fora? Tens algum lugar preferido?

Infelizmente na minha zona não há restaurantes vegetarianos! Por incrível que pareça, o restaurante mais próximo fica a cerca de 75km! (Ninguém se quer aventurar a abrir um em Viana do Castelo? 🙂 ). Por isso, quando como fora, tento ir a restaurantes onde já me conhecem e já costumam preparar algo melhorzinho. Mas ainda vou a muitos onde como sopa, arroz, batatas e salada. (vocês sabem como é). Deveria pelo menos haver uma opção vegetariana em todos os restaurantes.

9. Notas alguma diferença na maneira como te sentes antes e depois da alteração da alimentação? A nível físico, mental, emocional?

Quando deixei de comer animais, a minha saúde piorou imenso. Sim, leram bem, mas antes que alguém se possa alegrar com esta frase e exclamar “vêem? A carne é necessária!”, não, não foi o facto de eliminar os animais que agravou a minha saúde, mas o facto de ter passado a incluir lacticínios e ovos em todas as minhas refeições. Foi esse o meu drama. Deixei um lado, e destruí do outro.

Tinha imensos problemas respiratórios, como asma, rinite, sinusite, que agravaram muito, ao ponto de fazer visitas assíduas ao hospital, de usar bomba semanalmente, etc. Tinha muitas alterações de peso, alterações hormonais, problemas de pele, problemas de estômago, etc. Já tinha tido uma infância muito feia a este nível, na adolescência a coisa acalmou um pouco, mas voltou a piorar nessa altura novamente. Agora percebo que aquilo que afectava a minha saúde desde o dia em que saí da maternidade, era o leite de vaca. Todos os meus problemas de saúde desapareceram quando eliminei os lacticínios. Embora tenha dado este passo pelos animais, tive este bónus. Podem ler o meu relato completo aqui: O melhor passo que dei para a minha saúde.

10. Tiraste algum curso, workshop de alimentação? Podes nos deixar alguns nomes de pessoas que te inspiram?

Nunca tirei cursos de alimentação, mas já assisti alguns workshops de comida crua. Pessoas que me inspiram a nível de alimentação: todas aquelas que são vegetarianas e felizes com aquilo que comem. Nisto mudei bastante de há um ano para cá. Se me fizesses esta pergunta em 2015, eu teria dito uma série de nomes de crudívoros famosos, porque o meu foco aí era comer 100% cru e achava que toda a gente deveria fazê-lo. Hoje não penso assim (este ano que passou deu-me belas lições). Hoje penso que a alimentação crua é o melhor que posso dar ao meu corpo, mas o meu foco é o meu foco, o meu caminho é o meu caminho, isto faz sentido para mim e dá-me gosto traçar a caminhada assim. Incomoda-me que alguém consuma animais e derivados, porque aí estão a afectar directamente a vida de milhões de animais, mas sendo vegetariano, se um quer comer tudo cru e outro tudo frito, aí é a liberdade e o corpo de cada um.

11. Sei que publicaste recentemente um livro sobre o veganismo para crianças, queres falar nele?

Sim, chama-se “Lexy, o menino vegano”, foi inspirado na vivência com o meu filho Aléxis e em todas as crianças das famílias veganas e vegetarianas que fui conhecendo ao longo dos anos. Por ser vegetariana há tanto tempo, fui contactando com muitas famílias e fui-me apercebendo das suas (nossas) dificuldades. Quando o meu filho nasceu, verifiquei também que faltava um livro em português que lhe pudesse ler sobre o assunto, um livro que lhe mostrasse que a forma como vivemos não é esquisita ou rara, um livro que normalizasse o assunto, que o trouxesse à luz, que pudesse ajudar a mudar esta ideia de que os vegetarianos são ainda uma minoria quase inexistente. Acho importante e urgente transmitir esta mensagem de compaixão e respeito pelos animais a todos, e, de facto, tenho ficado muito feliz por ver o livro ser vendido a muitas famílias não vegetarianas, que conseguem ver nele uma mensagem de sensibilização positiva e não imposta, que conseguem perceber que há algo que pode ser feito, mesmo que não estejam prontas a fazer tudo duma vez.

O processo de escrita e planeamento deste livro foi muito interessante, pois começou por ser uma história, que se foi alongando muito ao tentar inserir nela vários pontos que desejava incluir. Aquilo que eu queria que fosse simples e directo, estava a tornar-se num livro longo demais para ser lido até ao final. Escolher o típico formato de ABC e escolher escrevê-lo em rima, foi só uma forma de obrigar-me a controlar a escrita e poder abordar vários assuntos sem escrever quase uma enciclopédia. Foi um processo moroso, com momentos frustrantes, escrito durante um ano particularmente complicado para mim. Mas foi a elaboração deste livro que me ajudou a levantar a cabeça e olhar duma forma mais positiva para o futuro, pois sabia que era algo que tinha de ser feito. Escrevê-lo ensinou-me muito. Agradeço muito à ilustradora Tânia Bailão Lopes, pela paciência e sensibilidade que teve ao longo deste processo. Esta obra tem muito de mim, muito do amor que sinto pelos animais, muito do amor que sinto pelo meu filho e muito do amor e da compaixão que sinto pela nossa própria espécie que, embora perdida (a vida não é fácil…), deseja exactamente o mesmo que desejam todos os animais: uma vida em liberdade. Somos todos iguais no nosso desejo de liberdade e respeito.

12. Tens alguma mensagem que queres deixar?

Informem-se, leia, falem com vegetarianos experientes, em vez de falarem com médicos e nutricionistas completamente despreparados. Ainda há muito aquela ideia do “agora tens de aprender a substituir a carne e o peixe”. Os produtos de origem animal não são necessários, logo, não precisam ser substituídos! Nós precisamos de nutrientes, de vitaminais, proteínas, minerais, água. Há esta ideia errada de que um vegetariano tem de quase tirar um curso de nutrição e quem come animais e derivados, não precisa de saber nada. Se querem tornar-se vegetarianos peçam ajuda, falem em fóruns adequados, procurem profissionais de saúde informados. Há, infelizmente, ainda uma quantidade grande de mitos que circulam como verdades absolutas, temos de aprender a filtrar. É um passo que vale mesmo a pena dar, não só pelos animais, mas pela nossa saúde, pelo nosso planeta, pelos nossos filhos. E façam o favor de ser muito felizes! Quando estamos felizes, fazemos os outros felizes, animais humanos e não-humanos.

13. Tens algum blogue ou página onde as pessoas te podem encontrar?

Blogue: https://barbaraword.wordpress.com/

Página do blogue no facebook: https://www.facebook.com/barbarawords/

Página do meu livro“Lexy, o menino vegano”: https://www.facebook.com/LexyOMeninoVegano/

Página pessoal: https://www.facebook.com/IndigoGi

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Autor: rawgabriela

Mãe de 2 filhos lindos a iniciar, em família, com calma, a sua viagem na alimentação saudável.

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